𝕀 \ 痛みで喜び ;
ㅤ ㅤㅤ ㅤ“O único momento em que eu me sinto menos criatura e mais humana é quando eu me deparo com o fardo nas costas; o cansaço do dia e sinto a vida pesada correr pelo meu corpo.
Quando eu me arrasto até o chuveiro e sinto a massagem quase silenciosa nas minhas costas e, sentindo a dor calma da vida, escorrendo pela minha cabeça até encontrar minhas veias, eu percebo que só há realmente uma "vida" quando se entende que, pra reconhecer o ganho, é necessário a perda. Pra valorizar o repouso, é necessário o cansaço. E só nesses momentos, eu me lembro que não sou só uma criatura, uma marionete que obedece ordens e realiza tarefas de comandos simples.
Eu sou igual a todos os outros.”
ㅤ ㅤㅤ ㅤ“Certamente, entre as coisas que mais odeio está essa claridade incômoda logo nas primeiras horas do dia. Não vêm devagar, não pede licença... E antes que eu possa me acostumar com as primeiras nuances do laranja ocre que surge nas bordas do horizonte, eu me deparo com o amarelo. O maldito amarelo que me lembra do dia; do fato de que eu tenho que levantar pra "ser alguém" — mesmo que isso não seja bem o que eu quero. Logo em seguida, trago a pior indagação possível: querer fumar um cigarro de barriga vazia e ter ânsia de vômito durante o resto do dia, ou, ter um café da manhã reforçado mesmo que contra a minha vontade e não fumar o cigarro, já que com certeza ficarei enjoada, do mesmo jeito. A diferença é que terei algo pra vomitar. Tal como o pensamento da lâmina de Occam, eu procuro o meio mais fácil e prático, que seria comer algo leve e enfiar na minha boca diversos cigarros, mas, como eu tendo a optar pelo mais complicado (seja essa uma escolha decisiva na minha vida ou algo superficial tal como fumar ou comer: eis a questão) e com um sorriso amarelo no rosto, deslizo os dedos pelo sofá, pego meu sobretudo e sigo pra fora de casa, acendendo um cigarro já nos lábios, sentindo a barriga reclamar pelo sabor amargo na garganta. O vento matutino gelado bagunça meus cabelos negros e puxa a fumaça pras minhas narinas, e mesmo que seja insuportavelmente incômodo, eu sequer movo as mãos de dentro dos bolsos pra livrar o rosto da nuvem cinza, mantendo os olhos cansados e marcados por olheiras fixos ao chão, contando cada passo que eu dou.
un, deux, trois, quatre...
A boca ressecada pela fumaça e pela brisa fria murmura, repetindo a contagem logo após o quatro. Mesmo tentando fazer parecer que conto os passos tal como uma dançarina, eu na verdade só sei contar até quatro em francês.”
ㅤ ㅤㅤ ㅤ“Entre meus pensamentos noturnos, me veio a ideia de que na verdade, eu sou exatamente igual a todos os outros demais seres. Seja o extremo de um ou de outro, eu me identifico como uma pessoa totalmente comum e sem muita graça; algo que se assemelha a uma parede ou uma cadeira. Eu possuo tamanha empatia devido a este fato — eu tenho características que todos tem. Não tenho a mínima ambição de me tornar única, sabendo que a comunicação se torna ainda mais fácil sendo exatamente igual. É um disfarce, uma roupa. Algo que está em todos e em ninguém. A fantasia de ser alguém único é incrivelmente utópica. Todos somos iguais, não há uma real autenticidade. Tudo que é bonito se torna uma cópia, desde um texto até um vício de linguagem.
Sabendo disso, por qual motivo eu precisaria me dar o trabalho de me tornar diferente?”
ㅤ ㅤㅤ ㅤ“Hoje eu me deparei com a pior das dores: O silêncio.
Não importava o que eu fosse fazer, tudo fazia silêncio demais, e eu percebi que minha rotina é um buraco repleto de nada. Só o vazio, a ausência, a falta. Ninguém falou comigo. Ninguém parecia se importar. Sempre que algo fazia som, o barulho ecoava nesse espaço imenso que sou eu. Um cumprimento, uma despedida… Tudo parecia vago demais… Até a minha gata parecia distante hoje. Eu até cheguei a pensar que, na verdade, todos já estamos mortos. Ou talvez só eu esteja, porque eu me senti invisível hoje.
Eu queria saber lidar com as minhas dores e com a solidão, mas é como se a solidão fosse um espaço grande demais pra que eu consiga observar tudo; Pra que eu possa sentar perto da parede e me sentir acompanhado pela minha sombra. Eu 'tava só.
Eu não via nem minha sombra.
Eu sabia que estava ali, no meio daquele espaço, mas nada estava perto de mim. E isso doeu.
Por isso eu chorei.
Porque mesmo que eu esticasse meus braços, eu não ia alcançar nada.
Porque eu estava só.”
ㅤ ㅤㅤ ㅤ“A necessidade da carne é algo que me amaldiçoa. É uma necessidade silenciosa, uma dependência implícita que não tenho coragem de admitir. É uma vontade incessante por um toque, uma demonstração de afeto ou de qualquer outra ação que me faça sentir alívio por sempre desejar mais. Porém, ao mesmo tempo que desejo, eu me forço o contrário; me prendo no chão e me faço acreditar na minha maturidade exemplar. Sou uma mulher independente, nada pode me abalar. Nada me faz falta, não existe nada que eu queira. Mentira.
Tudo que orbita o ser independente são mentiras. Todos precisam de alguém, e os que não admitem, são os mais sofridos.
É realmente dolorido admitir que a própria companhia não basta, e que um "bom dia" faria toda a diferença.
Eu sou uma mulher comum, não me importo em admitir que sinto falta, que me sinto sozinha. Porém, de forma sincera e genuína, não me importo em sentir essa dor avassaladora que a solidão destrói em meu peito... Sentir dor me excita. Independente da situação. E, nada mais excitante do que sentir prazer com a própria desgraça... Isso sim é independência.”
ㅤ ㅤㅤ ㅤ“Eu não quero envelhecer, pois estarei mais perto do fim. Porém, não quero continuar jovem. Eu preciso alcançar o ápice, mas o fato de que logo após o ápice eu só me agarrarei ao envelhecimento, que é uma eterna descida não me anima. Nem um pouco.”
ㅤ ㅤㅤ ㅤ“Tudo volta sempre pro mesmo ponto: eu tenho um medo irracional da morte. Mesmo que eu tenha plena certeza de que eu só terei paz quando eu não tiver mais capacidade de pensar, a ideia de desistir de tudo, de sumir e virar menos que uma lembrança me aterroriza.”
ㅤ ㅤㅤ ㅤ“A sensação de que eu estou jovem demais é aterrorizante. Eu não consigo me permitir fazer certas coisas, porque eu não me considero madura; porém, sempre que eu penso que daqui a 10 anos eu estarei velha demais pra qualquer coisa, eu sinto um arrepio doloroso.”
ㅤ ㅤㅤ ㅤ“Esse vazio que me assola a alma um dia ainda vai me engolir. E eu não posso fazer nada pra mudar isso, porque já tentei de tudo.”